Um dia desses, assistindo novamente ao DVD ‘Video Single Theory’, de 1998, uma cena me chama atenção. Nos momentos finais do documentário, o entrevistador pergunta ao Eddie Vedder: “Pearl Jam means a lot to a lot of people... But what does Pearl Jam mean to you?” Eddie faz uma pausa, em seguida começa Do the Evolution, e a pergunta fica no vácuo.
De repente me pego pensando... E se alguém me fizesse a mesma pergunta? Penso, penso e, coincidentemente, não acho resposta. Ouço rock desde 1991, justamente quando a banda lançou seu álbum de estréia. No entanto, o Pearl Jam não foi uma banda que me chamou atenção instantaneamente, muito pelo contrário. Não suportava ouvir Black ou Even Flow, mudava de estação na hora. O que aconteceu que me fez mudar de idéia, a ponto dessa banda se tornar a minha favorita por anos ininterruptos? O que essa banda tem de tão especial que me fez perder prova na faculdade em 2005, e provocar uma briga com minha esposa que tentava (muito prudentemente, tenho que admitir) argumentar que era impossível acompanharmos, de ponta a ponta, a tour de 2011?
Sempre fui fã de metal pesado, em meu acervo constavam bandas como Sepultura, Megadeth, Iron Maiden, Pantera e afins (apenas fitas cassete, pra mim era quase impossível comprar um vinil, tinha que juntar muito dinheiro, lembro que minha mãe me dava uns trocados para trabalhar na lanchonete que ela tinha na frente de casa mas era muito pouco, então tinha que escolher muito bem antes de decidir qual disco comprar). A banda que me levou ao universo do rock n’ roll foi o Guns N’Roses, e Duff McKagan (que nasceu em Seattle, diga-se de passagem) foi o cara que me motivou a pegar uma guitarrra e começar a praticar (outra coisa que também não entendo, pois ele era baixista na época). Porém, era muito difícil aprender uma música de heavy metal ou hard rock sem uma técnica, no mínimo, mediana, e essa limitação me fez abandonar o instrumento. Ouvi falar das bandas de Seattle por meio de revistas, li que havia um tal de Nirvana que estava fazendo sucesso. Morava em São Paulo e me lembro que tinha acesso a muita informação, sou do tempo em que rádio rock não era um mero adjetivo. Sonic Youth, L7, Screaming Trees, Soundgarden, Smashing Pumpkins, STP, Mudhoney e Alice In Chains eram nomes freqüentes na programação, além de, claro, Pearl Jam e Nirvana. Apesar de detestar as duas últimas bandas, o peso e a fúria do som de Seattle me contagiou.
O primeiro disco inteiro que ouvi do Pearl Jam foi Vs, em 1994, que peguei emprestado de um amigo apenas para copiar a letra de Daughter para mandar pra uma amiga. Eu tinha uma coletânea dos Stones em CD que meu tio havia me dado, ela estava até sem capa, emprestei pra esse meu amigo. Ouvi o CD apenas uma vez, pensei ‘pra quem gosta, é um bom disco’. Lembro de ter gostado de Dissident e Rearviewmirror. Encostei o CD na prateleira.
O Pearl Jam me chamou atenção mesmo com o lançamento de Vitalogy, lançado em 1994. Pelo rádio, ouço o final de Corduroy, e a locutora dizendo ‘é uma banda que cada vez mais vai deixando de lado o rótulo de grunge, e vai se encaixando no cenário do rock n’roll...’. Frase clichê, mas que me instigou a querer entender melhor por que ela foi dita. Lembro que fizeram um especial na rádio sobre o lançamento de Vitalogy, o locutor estava empolgado com a arte do CD, que continha uma espécie de livrinho de medicina. Resolvi ouvir, quando tocaram Not For You. Naquele momento, algo fez sentido pra mim. Pude compreender o que a locutora disse dias atrás. A seqüência de acordes, a distorção ardida e crua, a bateria caótica... Gostei muito da música, da primeira vez que ouvi. Ouvi mais algumas músicas, mesma impressão, disco direto, sem frescuras.
Meses depois, fui à uma loja em BH, em que todos os discos estavam em promoção e com preço único. Achei o Vitalogy, comprei. Cheguei em casa e fui direto ouvi-lo na íntegra, sem interrupções. Dias depois, lembrei que o Vs ainda estava lá em casa, ouvi-o novamente, achei também excelente. Por ter ouvido os dois discos e ter achado bons, aliado ao simples fato de ter entrado numa loja e ter preferido um disco do Pearl Jam ao invés de um do Iron Maiden, significava pra mim que a banda já tinha subido, em muito, no meu conceito. Influenciado pela distorção rasgada e pela simplicidade dos acordes e arranjos, voltei a tocar guitarra.
O resto é história... Vitalogy se tornou não só meu disco preferido, mas um símbolo de mudança pra mim, de conceitos, de estilos musicais. É um disco barulhento, simples, envolvente e empolgante, que me influenciou a virar fã de Pearl Jam, no meu modo de tocar guitarra, e a compreender que não é necessária uma super produção para se produzir um bom material. Comecei a entender que o Pearl Jam era uma banda que batalhava para mostrar ao mundo que eles não eram um rótulo, um estilo, mas sim uma banda de 5 caras que fazem rock, puro e simples, e que o afastamento da mídia foi uma maneira justificada de não permitir que a música perdesse a identidade. Eles fazem bons discos e fazem apresentações memoráveis, esse é o melhor retorno que uma banda dá aos fãs.
Assim que montamos a banda tentei de qualquer jeito inserir Not For You no setlist. Meus amigos acham que gosto de tocá-la porque eu faço o solo final (que na versão do álbum nem existe), mas pra mim há um significado por trás daquilo. É como se, de certo modo, eu fosse tele transportado para aquela época aonde tudo começou.
Bom, respondendo à pergunta do começo do texto... O que o Pearl Jam significa pra mim é a objetividade, que em minha opinião é uma das bases do rock n’roll. Pode-se fazer bons discos de rock sem firulas, pode-se fazer bons shows sem efeitos pirotécnicos ou coreografias enfadonhas. Seja simples sem cair na mesmice... Meta a mão nos instrumentos, pegue uma platéia que se pergunta ‘quem são esses caras?’, e a deixe louca após três ou quatro músicas... O Pearl Jam consegue isso, eles são assim, nenhum show é como o outro. Minha esposa não gosta da banda, ela foi aos shows para me acompanhar e porque gosta de Just Breathe, e confesso que fiquei emocionado após o show de Porto Alegre, quando a peguei cantarolando “why go home, why go home...” no caminho de volta.
A minha história com o Pearl Jam começa quando o Leonardo se transporta com Not For You...
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